AGIR – Programa de Acções para uma Governação Inclusiva e Responsável

O seu legado vai marcar-nos para sempre

Conheceu a figura de Iraê Lundim nos livros. Em 1997, teve o primeiro contacto físico que se prolongou até a sua partida definitiva, a 29 de Janeiro de 2018. William Mulhovo, antigo estudante, amigo e colega de Iraê Lundim, conta ao PlaraformAGIR os momentos marcantes que compartilhou com a finada nos últimos 20 anos. Mulhovo diz que, em vida, Iraê Lundim era uma pessoa simples, lutadora, honesta e comprometida com o trabalho e o seu legado deixará marcas perpétuas. Nas linhas abaixo segue a entrevista.

Quando é que conheceu Iraê Lundim?
Conheci-a quando ingressei na Faculdade em 1997. Foi minha professora na cadeira de Metodologia de Investigação Científica no Instituto superior de Relações Internacionais (ISRI). Contudo, muito antes de conhecê-la fisicamente, lia escritos dela em livros e coletâneas.
Além da relação de professora/estudante, outras coisas uniram-nos. Quando cheguei à universidade tinha uma paixão pelo activismo e ela também era uma grande activista e lutadora contra as injustiças sociais.
Portanto, a nossa relação ficou muito mais forte com o activismo. Foi nessa esfera que militámos juntos nas campanhas do cancelamento da dívida externa, o que culminou com a famosa HIPC 2 Heavily Indebted Poor Countries assim como na luta contra as medidas tomadas pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial no país.

Pelo que nos conta, foram 20 anos de convívio. Como é que era a figura desta académica e activista social?
Era uma figura multifacetada. Veja que a conheci como professora, depois fomos ao activismo, tornamo-nos colegas e amigos. Cada uma dessas convivências tinha o seu devido tratamento. Era uma pessoa muito esforçada, lutadora e exigente. É uma figura que teve uma história muito impressionante e comovente desde a sua juventude.

O que mais aprendeu nestes 20 anos de convivência?
Aprendi muita coisa, sobretudo os princípios de boa convivência, gosto pelo trabalho, amor ao próximo e honestidade. Sempre ensinou-me que nada vem por acaso. Todas as conquistas resultam do esforço e do trabalho. Ensinou-me que um ser humano deve ter ideias próprias, saber defendê-las sem desrespeitar as ideias dos outros. Isto é, devemos defender as nossas ideias sem desrespeitar os outros.

Um dos Programas em que Iraê emprestou o seu saber foi o AGIR. Na essência, qual foi o seu contributo?
Ela deu um enorme auxílio ao AGIR. Porém, o seu contributo não se limitou apenas ao Programa. Como académica, contribuiu muito na difusão e transmissão de conhecimentos a todos que cruzavam o seu caminho. Ela teve um papel muito importante na edificação do Estado de Direito em Moçambique, na construção da paz e no processo de descentralização. Ajudou o governo moçambicano a montar os primeiros pilares rumo à descentralização.

No AGIR, veio dar continuidade o seu activismo de longos anos. Emprestou o seu saber na luta por um país mais justo e sustentável, sem pobreza, democrático, de igualdade, justiça social e económica.

Os 20 anos de convivência mútua tiveram muitas fases. Qual foi o momento mais marcante?
É verdade, tivemos muitos momentos brilhantes, mas também de desafios. Contudo, um dos que mais me marcaram foi quando um dia fui visita-la no leito hospitalar. Ela estava internada devido à doença que depois lhe veio tirar a vida.

Depois de saudações, ela perguntou-me sobre o estágio do relatório trienal. Respondi-a que estava tudo dentro dos carris e bem encaminhado.
Disse-me que era importante cumprir com os prazos porque o contrário iria criar constrangimentos em cadeia. Aliás, a Dra. Iraê foi uma pessoa muito rígida com os prazos, todo o trabalho devia ser concluído e apresentado dentro do tempo estabelecido e com qualidade desejada. Para ela não havia razões para um colaborador justificar o incumprimento de prazos porque isso significa falta de planificação e comprometimento com o trabalho.
O que mais me deixou impressionado foi o facto de uma pessoa que está acamada e a padecer de dor manter o espírito de comprometimento com o trabalho.

Hoje, sentimos que aquilo que, em algum momento, podíamos considerar exigências exageradas, serviu para nos construir como profissionais. Perdemos a figura da Iraê, mas os seus ensinamentos persistem, estamos a conseguir conduzir o barco sem sobressaltos porque ela deixou-nos esse legado.
Partiu, sentimos a sua ausência física, sobretudo quando vamos ao seu gabinete e não a vemos, mas deixou grandes referências, deixou conhecimento, incutiu-nos amor pelo trabalho, o espírito de activismo e estamos a levar avante as suas lutas.

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O AGIR – Acções para Uma Governação Inclusiva e Responsável, é um programa de apoio e capacitação das Organizações da Sociedade Civil (OSC´s) Moçambicanas, cuja primeira fase de implementação decorreu de 2010 a 2014. Desde Janeiro de 2015 até Dezembro de 2020 decorre a segunda fase, com a duração de seis anos, tendo a Embaixada da Suécia como seu principal financiador, com apoio suplementar das Embaixadas da Dinamarca e Países Baixos.

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